(a brincar com golfinhos e uma "Mafalda loura" da playmobil)
Às vezes quer ser a mafalda, ou mais precisamente, a mafalda loura e isso já nos levou a explicações embaraçadas junto da escola e desconhecidos.
Porque temos consciência de que soa estranho que uma criança do sexo masculino deixe de responder pelo próprio nome e passe a responder, e apenas, pelo de Mafalda, comportando-se e falando de forma diferente, sem prévio aviso nem contextualização para quem observa e não conhece os meandros da coisa.
E no entanto não tem grande mistério. Fã como é do espectáculo dos golfinhos do Jardim Zoológico de Lisboa, é natural que o A. saiba o nome de todos os tratadores e tratadoras, bem como o de todos os golfinhos a quem já fez festas e deu beijinhos várias vezes, e que de entre todos eles tenha escolhido o da Mafalfda loura (como ele) como tratadora de eleição.
E é uma fixação que dura há muito tempo obrigando-nos a assumir frequentemente o papel do Walter (pai) e Lia (mãe), os eternos colegas tratadores da nossa Mafalda, porque para o A. estas coisas se fazem como deve ser. E nós achamos graça. è uma idiossincrasia curiosa e divertida que, excluindo os embaraços ocasionais, nos torna mais originais como família.
O que não esperávamos é que esta transmutação pudesse durar tanto tempo.
Ontem regressou a casa transformado em Mafalda, brincou, conversou, jantou e deitou-se enquanto Mafalda,com uma voz e uma postura ligeiramente diferentes, mais adulta, um comportamento irrepreensível (devo dizer que um serão com a Mafalda é um descanso), opinando sobre coisas várias de um ponto de vista diferente, falando do A. na terceira pessoa e com uma coereência surpreendente (explicas-me como é que isto se faz? é que o A. sabe fazer mas eu nunca tinha cá estado antes e não sei), adormecendo sem chucha porque é mais crescida e já não usa!
E hoje, ao acordar, ainda era a Mafalda quem dormia na caminha pequena, dizendo que o A. se tinha ido embora a meio da noite para casa de um amigo e não tinha voltado. Foi ela quem comeu o pequenos almoço, se vestiu sem reclamar e se encaminhou calmamente para o carro, apesar das muitas tentativas minhas para fazer regressar o A. dessa noite fora de casa porque tinha de o levar à escola (e aparentemente ele agora estava invisível).
Já um pouco preocupada com este faz de conta insistente fi-lo despedir-se da Mafalda à porta do Jardim Zoológico porque ele agora tinha de ir para a escola e ela tinha de ir trabalhar.
E ele assim fez, com um beijo sonoro e um adeus até logo.
Mas ficou cabisbaixo, de beicinho tremido e lágrimas grandes a saltarem-lhe dos olhos. E nem cinco minutos tinham passado e já ele chorava verdadeiramente ao meu colo, inconsolável como quem se despede realmente de um ente querido, a dizer que a Mafalda agora se tinha ido embora e que estava muito triste.
O colo e o carinho da mãe desanuviaram a tristeza (como costuma ser prerrogativa dos colos e carinhos das mães) mas não desfez o ligeiro nó que me ficou no peito.
Será normal? O que fazemos?
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