Dias mãeores

um blog de mãe para recuperar o tempo perdido em dias sempre mais curtos que o desejado

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

As galochas amarelas


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Enquanto o dilúvio inunda tudo lá fora e esbate todos os contornos em linhas líquidas e onduladas vêm-me à memória dias antigos de caminhadas para a escola com os pés protegidos dentro de umas botas de borracha.

As da minha infância eram amarelas com um pedaço de tecido impermeabilizado a prolongar e proteger o cano com um atilho de apertar à perna e são uma invocação profunda de liberdade.
Com elas o caminho deixava as fronteiras definidas pela sensatez e podia assumir contornos aventureiros e destemidos, cada poça a representar uma subversão divertida das regras habituais.
O meu percurso de todos os dias reinventava-se e passava então a uma sucessão aparentemente aleatórea de ziguezagues de forma a não falhar uma única poça de água, no simples propósito de verificar a sua profundidade e limites num splash decidido e convidativo.
A surpresa e o inesperado faziam parte do jogo e o resultado era muito frequentemente uma molha descomunal entre todos os miúdos, contagiados pela loucura destes mergulhos e correrias sobre as águas.

Num dos dias, correu pela escola que se tinham formado duas piscinas gigantes por trás dos pavilhões pré-fabricados da 1ª e 2ª classe.
Todos nós acorremos na antecipação excitada dos grandes momentos.
Eram de facto descomunais, ninguém conseguia saber com exactidão que profundidade teriam e para as atravessar seriam precisos pelo menos 10 passos em corrida determinada.
O espanto tornado pequenos gritos contidos durou uns instantes connosco estacados na margem inusitada, até que os mais velhos decidiram quebrar a magia do momento.
Com a rapidez própria das decisões excitadas e subversivas, os maiores de todos nós, os repetentes da quarta classe, empurraram todos os outros para dentro daquele mar e a loucura instalou-se descontrolada, até que as auxiliares e as professoras (obrigadas a deixar o aquecedor confortável da sala das contínuas onde passavam todos os intervalos) nos vieram buscar em gritos reprovadores.

Na confusão que se gerou nenhuma galochas conseguiriam proteger-nos das águas que volteavam nos ares em salpicos multidireccionais.
O susto, o entusiasmo, a excitação, a proibição, tudo concorreu para a profunda desordem que se instaurou e o resto do dia foi passado em camisola interior, cuecas e meias em frente ao aquecedor na sala de aula perante os olhares furiosos da D. Dores, nossa professora da primária.

Quando olhei pela janela para a Estrada da Luz inundada e cheia de transeúntes encharcados até à canela, apesar de toda a minha empatia e solidariedade, não consegui deixar de sorrir nesta revisita à liberdade das botas amarelas.

Talvez por isso, sobre a roupa sóbria de coordenadora de serviço educativo (gente séria, com responsabilidade) tenha calçado umas galochas (agora em versão cool de design sofisticado e urbano) e caminhado decidida para o trabalho, enfiando os pés em todas as poças do caminho.

Splash, splash, splash!

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7 Comments:

  • At 18 fevereiro, 2008 17:02, Anonymous mãezita said…

    ainda bem que há dias assim para nos libertarem a criança que está cá dentro. Abençoadas as galochas sejam elas de que cor forem se nos fizerem voltar a ser meninos outra vez....
    um viva mais um texto lindo, como sempre me habituaste e que sejam abençoadas todas as galochas do mundo, sejam elas amarelas, às bolinhas, ou simplesmente pretas como foram as da minha infância. Um beijo muito carinhoso da mãe

     
  • At 18 fevereiro, 2008 17:09, Anonymous Anónimo said…

    Aí está uma bela forma de sair do sofá e começar uma epopeia: «A Saga das Galochas às Pintinhas Cor-de-Rosa»

     
  • At 18 fevereiro, 2008 22:04, Blogger Pedro Veiga said…

    Muito bonito o texto! Ainda hoje me lembrei desse prazer que é o de pisar todas as poças de água que existem no caminho. Hoje também vesti as minhas galochas de cano alto (de pescador) e lá fui a caminho do metropolitano. Ao atravessar o Parque das Conchas escolhi o caminho mais alagado justamente por causa dessas recordações de infância...

     
  • At 19 fevereiro, 2008 08:11, Blogger Rodrigues said…

    :))

     
  • At 19 fevereiro, 2008 16:25, Anonymous Paimica said…

    As coisas que um texto lindo só agora me deu a conhecer, mas que sempre imaginei ter provavelmente acontecido. Já agora, as minhas botas de borracha (era o nome na época) também fizeram das suas
    Na minha infância o gozo era bem mais profundo, pois não havia estrada na minha aldeia. No Inverno o "asfalto" era forrado a lama e poças de água. Tinha de ser mesmo de botas de borracha preta, feias mas úteis. O divertimento estava em conseguir seguir os carris dos "eléctricos" da época. Carros de bois, de burros ou carroças que abriam sulcos no "alcatrão derretido" que uma vez cheios de água da chuva permitiam-nos seguir um percurso sempre a chapinhar. Num constante desafio ao equilíbrio para não sair do sulco em disputa com o companheiro no sulco ao lado. Era "patinar" sem patins, sabendo que a haver queda, seria no charco. Não era preciso escolher, o lamaçal era todo o caminho até à escola. E quando, na 4ª classe mudei de escola, tinha de percorrer 4 km na ida e outros tantos na volta, o gozo passou a ser o oposto. O divertimento passou a tarefa. Encontrar o melhor caminho. As zonas de areia eram as melhores. Davam para correr e pular para sacudir a lama agarrada às botifarras e aliviar o peso dos pés. Muitas vezes era preciso lavar as galochas nas poças ou nas linhas de água atravessadas, tal era a massa de lama agarrada. Felizmente o Inverno não foi todo o ano e não chovia todos os dias. Foi um tempo divertido que se recorda com alegria.
    Bjs
    Paimica

     
  • At 22 fevereiro, 2008 15:53, Blogger daniel said…

    Ainda me lembro de ser obrigado a deixar a roupa ao fundo das escadas quando passava férias com o primo na cerâmica.

    A quantidade de lama era tão grande que só tínhamos autorização para subir as escadas, em cuecas, directamente para a banheira.

    O pior era a promessa de que, no dia seguinte, a roupa para brincar seria a mesma que repousava, dura da lama ressequida, ao fundo das escadas.

     
  • At 15 julho, 2009 23:50, Anonymous Anónimo said…

    Olaaa, eu amava ter umas galochas, mas nao encontro em lado nenhum.. sera que sabe onde posso encontrar umas?
    Se souber responder por favor mande a resposta para o meu mail:
    marian-brito@hotmail.com
    Obrigadaa

     

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